De volta aos gramados

Após seis meses Douglas Raphaelli retorna às competições pelo Operário

Foto: Douglas Raphaelli/Instagram

O treino com a equipe profissional estava acabando, era o último lance e em um movimento comum, rotineiro, Douglas foi ao chão, tentou se levantar e foi aí que o joelho estalou e travou. Não era a primeira vez que passou por isso e ele sabia, antes mesmo do exame, que teria que se submeter à cirurgia no outro joelho. Em seguida, o diagnóstico: lesão no menisco, alça de balde. Cirurgia marcada e seis meses afastado dos gramados. 

Para entender o que as lesões representaram na vida de Douglas Silva Raphaelli,  o DG, como é conhecido pelos colegas do clube, é preciso voltar ao começo. O garoto cresceu em um ambiente de futebol. O pai abriu mão do sonho para ficar em casa e trabalhar. Já o irmão mais velho, Wellerson Silva Raphaelli, também goleiro, se tornou referência e, atualmente, defende a camisa do Centro Sportivo Alagoano (CSA).

Douglas, o caçula da família, acendeu o desejo pelo futebol com o olhar atento em tudo. “Cresci vendo tudo isso, vivendo o mundo do futebol”, relembra. Aos nove anos de idade, iniciou sua caminhada nas escolinhas de sua cidade natal, Barão do Triunfo, no Rio Grande do Sul. Esteve um tempo nas escolinhas do Grêmio, passou por Gravataí, depois para Porto Alegre.

Em novembro de 2021, foi aprovado nas categorias de base do Avaí, time de Florianópolis, Santa Catarina. Em julho de 2022, teve a primeira lesão, uma torção no joelho esquerdo durante um treino. O clube, segundo o atleta, não pediu exames e ele voltou a treinar. Em novembro do mesmo ano, Douglas precisou operar. Depois jogou para o clubeSport, em Recife, o Laguna, no Rio Grande do Norte, e o Esportivo, em Bento Gonçalves.

Foi no Operário, em Ponta Grossa, no final da temporada de 2024, que o segundo joelho precisou ser operado. Após a cirurgia, DG ficou duas semanas em casa com a família, depois precisou voltar a Ponta Grossa. A reabilitação ficou a cargo dos fisioterapeutas e da comissão técnica do clube dentro de uma rotina que ele descreve sem romantismo. No início, era fisioterapia e, quando as sessões na academia começaram, ele passou a sentir o cansaço da repetição diária dos exercícios. O alívio chegou depois de três meses, quando os exercícios foram transferidos para o gramado, conciliados com a academia. 

A lesão

De acordo com o artigo do médico Pedro Pinheiro, especialista em Medicina Interna e Nefrologia, “Os meniscos são dois pedaços de cartilagem em forma de C,. Eles servem para proteger as extremidades dos ossos que deslizam entre si durante a flexão e extensão dos joelhos. Os meniscos também possuem papel na estabilização dos joelhos e na absorção de choque mecânico quando o indivíduo salta ou cai em pé de alguma altura”, como consta o artigo Lesão do menisco: o que é, causas, sintomas e tratamento.

No caso de Douglas, o diagnóstico foi ainda mais grave. A lesão em “alça de balde”, um dos tipos mais sérios de ruptura, em que uma parte do menisco se desprende completamente do movimento da articulação. É nítido que o futebol tem passado por inúmeras mudanças nos últimos anos, principalmente em função das exigências físicas cada vez maiores, o que obriga os atletas a trabalharem perto de seus limites máximos de exaustão e, com maior predisposição às lesões. 

Douglas tinha 17 anos, estava longe de casa, a mais de 900 quilômetros da família e acabava de entrar para uma estatística que o futebol costuma omitir. Dados compilados pelo Portal da Ortopedia, publicados em 2025, indicam que mesmo após a recuperação dos meniscos, o desempenho dos atletas sofre uma queda de 40% a 55% nas atividades esportivas. O levantamento também revelou que 25% de um grupo de 240 atletas sofreram lesões do menisco isoladas, e que grande parte aconteceu entre jogadores de futebol com mais de 26 anos.

O psicológico

Como fica a cabeça de um atleta de base nesse processo? Para a psicóloga clínica e esportiva Fabiana Nascimento, quando um atleta se machuca, não é só o corpo que sente. “O coração e a cabeça também podem ficar tristes, com medo ou até irritados, e isso é muito normal”, explica. Ela aponta que o trabalho psicológico durante a recuperação passa por técnicas como conversas acolhedoras, respiração, visualização mental e o estabelecimento de metas pequenas e possíveis. “Em vez de pensar ‘quando vou voltar?’, aprendemos a comemorar cada pequena conquista da recuperação”, diz. 

Assim como revelado na história de Jacaré, no primeiro capítulo, Douglas também sofre com a distância da família. “Sem eles, eu não conseguiria ter passado nenhuma das duas vezes. A segunda cirurgia foi bem mais difícil que a primeira”, reflete. Ligações diárias, apoio a distância e a certeza de que havia gente torcendo do outro lado do país. No futebol de base, onde jovens com idade média de 13 a 20 anos, deixam suas casas para morar em alojamentos disponibilizados pelos clubes, a rede de apoio “invisível” aos olhos de quem está do lado de fora costuma ser o único amparo. 

Douglas retornou às atividades antes do previsto. Eram esperados seis meses de recuperação, contudo, com cinco meses e duas semanas ele voltou a ser selecionado para os jogos. Voltar mais cedo não apagou o medo que ficou. “Até hoje com um mês e pouco que voltei a treinar, tenho medo de fazer alguns movimentos, principalmente o movimento que eu machuquei, eu lembro certinho como foi”, relembra Douglas.

A psicóloga reforça que o medo de uma nova lesão é um dos maiores obstáculos da volta. Segundo ela, o corpo muitas vezes melhora primeiro, mas a cabeça ainda carrega o trauma. “Às vezes vem um pensamento como: ‘vou me machucar de novo’. Então, trabalhamos para trocar por pensamentos mais fortes e reais, como: ‘estou me cuidando e voltando aos poucos'”, explica a especialista. A confiança, segundo ela, volta de forma gradual, primeiro com pequenos movimentos, depois com treinos mais intensos, até o atleta perceber que consegue de novo. 

Com mais de um ano de clube e quase nenhuma partida disputada, ele viu o momento, que deveria ser o de consolidar seu espaço, tomado pela lesão. “No ano passado, eu era um dos mais novos a chegar no clube. Esse ano que era pra eu estar jogando e tendo mais oportunidades, e eu estava machucado”, lamenta. Agora, com 19 anos e de volta aos treinos e à rotina com o grupo, a sensação é de recomeço. “Estou muito feliz por estar de volta, junto com a equipe, vivendo o jogo novamente”, diz o goleiro, que ainda aguarda o retorno aos campos. 

Esta reportagem integra uma coletânea de livro-reportagem investigativo. Este capítulo trata a história de um atleta que sofreu com lesões e aguarda o momento de fazer sua reestreia nos gramados. Leia o capítulo anterior aqui. Acompanhe no Periódico as próximas publicações.

 

Ficha técnica

Produção: Maria Fernanda Sperafico

Supervisão de produção: Hendryo André

Edição e publicação: Celyne Stefani, Emilly Paitch e Karine Santos

Supervisão de publicação: Aline Rosso e Muriel Emídio Pessoa do Amaral

 

 

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