“Espero que Deus não me leve sem uma resposta da minha filha”

Foto: Emanuelle Pasqualoto

Brasil soma 7.808 desaparecidos na faixa etária de 0 a 17 anos

Das dúvidas que permanecem durante o processo do desaparecimento de alguém, a maior é o reaparecimento; quando e se a pessoa irá voltar. O momento do reencontro é idealizado todos os dias por parentes e amigos. Podem-se passar horas, que se tornam dias, meses que completam anos, mas sempre existirá a esperança do reencontro.

Ivanise Esperidião, mesmo 30 anos após o desaparecimento de Fabiana, nunca achou que iria romper totalmente o contato com a filha. Em algum momento, a felicidade do reencontro iria predominar sobre a dor de perder alguém. Um olhar cuidadoso e com esperança, essa é a definição que uma mãe que passa por uma perda constantemente invisibilizada.

Dia 25 de maio marca o Dia Internacional de Crianças Desaparecidas. Em 2026, o Brasil soma 7.808 desaparecidos na faixa etária de 0 a 17 anos, segundo o Ministério da Justiça e Segurança Pública. O número de pessoas localizadas nessa faixa etária e no mesmo período foram de 5.034. Das faces que permanecem na incerteza, está Fabiana.

Uma das necessidades da família, após uma perda por desaparecimento, é procurar os caminhos que podem ser seguidos. O luto debatido na última reportagem desta série é uma das vertentes que permanecem na caminhada do pós-desaparecimento. Segundo artigo publicado na revista Pretextos, da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, famílias devem buscar mecanismos de enfrentamento que visam reequilibrar e readaptar as novas condições de vida.

“Eu me questionava com Deus: por que eu? Por que a minha filha?”. Ivanise rememora os dias após a perda. Sem nenhuma pista ou ajuda, a mãe tentava montar um quebra-cabeça em que as peças não se encaixavam. “Durante os três meses que eu procurei a minha filha, nunca cruzei com uma outra mãe que estivesse vivenciando a mesma dor que eu”.

A próxima batalha

“Um dia, uma colega minha de faculdade me ligou e me deu o telefone de uma organização localizada no Rio de Janeiro”, conta. A ONG em questão era o Centro Brasileiro em Defesa da Criança e Adolescente, que trabalha com violações de direitos e cuida de casos de  desaparecimento. “Mandei uma correspondência com uma foto da Fabiana, cópia do boletim de ocorrência e um breve relato de como ocorreu o desaparecimento”.

Era 1996, e a Rede Globo transmitia em horário nobre a novela Explode coração, escrita por Glória Perez. A autora da obra decidiu exibir durante os capítulos fotos e apelos de familiares de crianças desaparecidas como forma de divulgar informações que ajudassem a encontrá-las. Após cadastrar a filha na ONG, Ivanise recebeu um telefonema questionando se gostaria de participar da novela com seu apelo.

“Essa era a oportunidade para eu mostrar minha filha em uma emissora que estava tendo uma audiência muito grande”, afirma Ivanise, sempre esperançosa. “Eu voltei de lá com essa perspectiva, que a hora que fosse mostrado o meu apelo na televisão eu encontraria Fabiana”, demonstrando que o que lhe dava forças era a luta pelo reencontro.

O apelo foi transmitido em rede nacional às oito horas da noite de uma quinta-feira do mês de março. O dia passou e o telefone não trouxe novas informações. Ninguém sabia notícias da menina que desapareceu enquanto retornava de um aniversário. No entanto, apareceu o que talvez fosse um novo caminho. Ivanise, durante a gravação, teve contato com as Mães da Cinelândia, reuniões com mães que tiveram os destinos dos filhos tomados pelo desaparecimento. Já em São Paulo, sem notícias de Fabiana mesmo após o apelo, duas jornalistas entraram em contato e divulgaram o número de Ivanise para mães que passavam por tal situação.

O telefone finalmente tocou, mas agora eram pessoas com suas próprias histórias que, assim como Ivanise, achavam que estavam sozinhas. O encontro após tanta procura foi marcado, em 31 de março de 1996, na Praça da Sé, o dia em que Ivanise passou a dedicar sua vida à causa que tirou Fabiana tão cedo e cruelmente de seus braços.

Transformar a dor em luta

“A Praça da Sé era o palco das grandes manifestações da sociedade. Como as mães lá no Rio se encontravam nas escadarias da Cinelândia, eu marquei de me encontrar com aquelas pessoas nas escadarias da Catedral da Sé”. Assim, Ivanise iniciou um movimento com mais de 100 pessoas presentes, que se tornaria a organização que preside até os dias atuais: Mães da Sé.

“A partir daquele dia, saímos do anonimato”. Todas aquelas pessoas reunidas mantiveram uma chama acesa, a esperança. Não importa se passaram dias, meses ou anos, o apoio é mútuo. Hoje, o trabalho de Ivanise tornou-se referência. Nos anos de atuação da Mães da Sé, já são mais de 5.700 pessoas encontradas. A relação da instituição com os órgãos públicos ajuda diariamente nos reencontros que acontecem pelo país.

O processo investigativo

O delegado Luis Gustavo Timossi, responsável pelo setor de homicídios e desaparecimento em Ponta Grossa, explica que o primeiro passo para investigação desses casos é a análise do boletim de ocorrência. As primeiras diligências são realizadas com base na localização do desaparecido. Por isso, é importante um boletim de ocorrência com o máximo de detalhes. Na cidade, uma média de 14 desaparecimentos são registrados por mês.

O processo da investigação, assim como retrata a história de Ivanise, tem como principal aliada a família da vítima. “Muitas etapas da investigação correm sob sigilo absoluto para possibilitar o êxito nas diligências investigativas. O contato com os familiares é feito de forma humanizada”, diz.

André Petter, investigador de polícia e especializado em segurança pública, reforça a fiscalização e rastreamento do celular e redes sociais da vítima. “O rastreamento é realizado de forma sigilosa, perante a lei que veda a divulgação das técnicas de investigação e informações utilizadas pela polícia civil”, explica.

Outras ações colaboram com o trabalho investigativo policial. Uma marca de produtos lácteos, em parceria com a Associação Mães da Sé, estampa as caixas de leite com fotos de desaparecidos e suas devidas atualizações para os dias atuais feitos com inteligência artificial. Já são mais de 300 milhões de litros de leite que rodam pelo país e carregam consigo a esperança e a luta incessante pela visibilidade da causa e das vítimas.

“E eu não encontrei minha filha ainda, mas creio que na hora que eu menos esperar, Deus vai trazê-la de volta. Nesse dia eu vou poder morrer em paz, porque o vazio que ela deixou dentro de mim, nada do que eu faço preenche”, espera Ivanise, com o coração que bate, todos os dias, pelas milhares de vítimas de desaparecimento, como alguém que sente na pele um vazio, que busca entender o que aconteceu com Fabiana Esperidião da Silva.

Esta reportagem integra uma coletânea de livro-reportagem. Este capítulo trata de desaparecimentos. Leia o capítulo anterior aqui. Acompanhe no Periódico as próximas publicações.

Ficha técnica

Produção: Emanuelle Pasqualotto

Supervisão de produção: Hendryo André

Edição e publicação: Eduarda Leal, Emanueli Garcia e Sarah Brasil

Supervisão de publicação: Aline Rosso e Kevin Kossar Furtado

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