Diferentes perspectivas do cuidar
Arquivo pessoal: Terezinha Maciel
Terezinha Maciel (61) e Michele Buss (60) são duas perspectivas diferentes do mesmo trabalho: cuidar de membros da família quando adoeceram. Terezinha é porto-alegrense e, após dois anos cuidando do pai, se apaixonou pelo cuidado e agora atua como técnica em enfermagem. Já Michele, que vive em Curitiba, é bióloga aposentada e afirma ter vivido o momento mais estressante de sua vida quando teve que cuidar da mãe idosa.
Terezinha é uma senhora sorridente e simpática, sempre muito carinhosa e trabalhadora e isso reflete nos trabalhos de cuidado. Em 2013, quando seu pai, Juarez Maciel, de 77 anos, teve um AVC, ela o recebeu em casa e foi a principal responsável por ele durante dois anos, até seu falecimento em setembro de 2015. Terezinha deixou de trabalhar com o marido na empresa de acabamentos para gráficas para se dedicar 100% aos cuidados com o pai. Juarez não conseguia comer nem se mexer sem ajuda, o que gerou uma rotina de cuidado intensa. A filha precisava exercer as atividades básicas do dia a dia. “Era necessário dar alimentação por sonda, remédios, trocar fraldas, dar banho e até mesmo costurar roupas adequadas para o conforto do pai”.
A cuidadora conta que mesmo com o apoio das pessoas mais próximas, a responsabilidade maior era dela. “Nenhum dos meus irmãos quis dividir a responsabilidade dos cuidados”, relata. Juarez possui cinco filhos, que com o passar dos anos o visitavam cada vez menos. “É um abuso os familiares jogarem todo o trabalho em cima de uma pessoa só”. A cuidadora nunca recebeu nenhum apoio financeiro da família, mas sempre correu atrás dos direitos e dependia da aposentadoria do pai.
“A minha principal motivação era o amor”, afirma. Segundo Terezinha, seu pai era uma pessoa difícil de lidar, mas mantinham uma boa comunicação.Terezinha adaptou sua casa para os cuidados com cama hospitalar, ar-condicionado e guincho. Ela sempre prestava muita atenção a todos os procedimentos que o pai realizava no hospital para repetir o que fosse necessário em casa. “Foi no acompanhamento do meu pai que eu descobri o meu amor pelo trabalho de cuidado”, afirma. Dois anos após a morte do pai, Terezinha fez curso de técnica em enfermagem e se dedica a esse tipo de trabalho até hoje.
Duas realidades
Michele Buss também passou pelo trabalho de cuidadora não remunerada de um membro da família, com uma experiência diferente. Michele se apresenta de maneira séria, mas bem humorada, como quem busca rir em meio às dificuldades relatadas. A mãe, Zilpha Carvalho, tem 89 anos e sofre com problemas cardíacos. Assim como o pai de Terezinha, Michele relata que a mãe não é uma pessoa fácil de lidar. Sempre muito independente, Zilpha não aceita receber os cuidados que necessita, o que dificulta muito a responsabilidade da filha.
Michele é a principal responsável pelos cuidados com a mãe desde setembro de 2025. Zilpha precisava comer, tomar banho e de medicações. “Foi a coisa mais difícil que eu tive que fazer na vida”, afirma a cuidadora. Casada e mãe de quatro filhos, a curitibana relata ter tido diversas consequências em sua saúde devido à dedicação aos cuidados com a mãe. “Eu tive fortes crises de vertigem e meu psiquiatra triplicou a dose do remédio por conta do estresse”.
O estudo Cuidadores do Brasil, publicado em 2021 pelo Instituto Lado a Lado pela Vida (LAL) e a Veja Saúde, aponta que seis em cada dez cuidadores têm pelo menos 50 anos; 27% têm 60 anos ou mais. No que diz respeito ao impacto na saúde emocional e física dos cuidadores, 48% relataram sofrer com estresse e um em cada cinco apresentou problemas de insônia. Além disso, é comum o relato de dores e lesões por esforço repetitivo (LER). Terezinha e Michele são exemplos reais do que os dados indicam.
Além disso, o levantamento mostra que cerca de 80% dos cuidadores familiares não possuem a capacitação necessária na área de saúde, apenas seguem as orientações dos médicos. “O governo tinha que ser mais presente no apoio aos cuidadores”, observa Terezinha. Quando a cuidadora estava em busca de direitos, tomou conhecimento que poderia solicitar o auxílio-acompanhante, que representa um adicional de 25% no salário do aposentado. No entanto, ela sofreu um impasse ao descobrir que o auxílio só pode ser solicitado quando o paciente foi aposentado por incapacidade permanente, o que não era o caso de seu pai.
O preço de cuidar
Apesar das diferentes experiências, Terezinha Maciel e Michele Buss retratam realidades que atingem cidadãs de todo o país. No Brasil, 90% dos cuidadores não remunerados são mulheres, em sua maioria filhas, mães, netas e cônjuges.
Segundo a professora Georgiane Vázquez, do Departamento de História da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), o trabalho de cuidado tem uma imposição histórica sobre as mulheres. “A cultura que enxerga a mulher ideal como mãe reforça a ideia da obrigação familiar atrelada ao cuidado”, afirma. Para a docente, a romantização do trabalho deriva da sustentação do sistema econômico vigente. Ela observa que o trabalho doméstico não é reconhecido como um trabalho real. “Para o trabalhador prestar seu serviço, ele precisa de comida, roupas e apoio em casa, o que faz muitas mulheres serem exploradas por falta de reconhecimento”, afirma. “É preciso caminhar em direção a divisão igualitária dos trabalhos domésticos em casa, entre homens e mulheres, e não apenas designar o serviço a um indivíduo baseado em seu gênero”.
Esta reportagem integra uma coletânea do livro-reportagem. Este capítulo trata da dualidade na questão do trabalho de cuidado. Leia o capítulo anterior aqui. Acompanhe no Periódico as próximas publicações.
Ficha técnica
Produção: Amanda Los
Supervisão de produção: Hendryo André
Edição e produção: Emanuelle Pasqualotto
Publicação: Larissa Viero e Luiz Cruz
Supervisão de publicação: Aline Rosso e Kevin Kossar Furtado
