Manter-se no cheerleading em Ponta Grossa exige sacrifícios dos atletas Foto: Arquivo Bulleaders
Foto: Arquivo Bulleaders
Manter um time universitário de cheerleading vivo é um ato de resistência. Por trás das habilidades apresentadas (skills), dos gritos da seção cheer e das formações, existe um calendário de treinos puxado, uma rotina que não pode parar, acima de tudo, um grupo financeiro, em sua maioria desfalcado, que necessita funcionar o ano inteiro. No Brasil, onde a modalidade ainda luta para conquistar espaço e reconhecimento, para um time sobreviver exige-se criatividade, união e muita dedicação de não apenas um, mas de todos os atletas. Uniformes, mensalidades, competições, viagens e até o custo de aluguel para treinos compõem uma lista de gastos que ultrapassa o orçamento de muitos universitários. Apesar dos desafios, os times seguem ativos, pela certeza que sem esse empenho, o futuro do cheerleading ponta-grossense pode se encerrar.
A Bulleaders é uma equipe universitária da atlética Los Bravos, que representa os cursos de Engenharia, Zootecnia e Arquitetura da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG). Fundada em 14 de julho de 2014, é o conjunto mais antigo da modalidade na cidade. Foi idealizado por Diego Costa e Dayane Sleutjes, que treinavam assistindo a vídeos de cheerleading nos gramados e nas quadras do Campus Uvaranas da UEPG. Na época, eles não imaginavam o caminho que abririam para os futuros colegas, que culminaria na criação de um dos maiores campeonatos universitários do Paraná. A estreia dos pioneiros nos Jogos Inter Atléticas de Ponta Grossa (JOIA) de 2014 teve como foco principal as danças. Devido a falta de tatames ou um tablado para a segurança dos competidores, os atletas realizavam apenas elevações seguras para evitar qualquer tipo de queda.

Foto: Arquivo Bulleaders
Arrecadações
Ao longo do ano, as arrecadações se tornam tão importantes quanto os próprios treinos. Rifas, vendas de docinhos, bazares, vaquinhas on-line, parcerias com comércios locais e até apresentações em eventos são estratégias que surgem da necessidade. Cada atleta entende que, sem esforço coletivo, o time não chega à próxima competição. “Costumamos fazer rifas, que não é a coisa mais animadora do mundo, mas precisamos desse dinheiro”, destaca Gustavo Henrique Olbertz, atleta há quatro anos e atual coach da Bulleaders. Apesar deste ganho, o valor das inscrições para um campeonato é alto.. Em 2025, o campeonato regional JOIA PG diminuiu drasticamente os valores da inscrição por atleta, que já chegou a ser R$ 82 em 2022; em 2025, custou R$ 32.
As demandas financeiras do cheerleading universitário pesam no orçamento de um time que se mantém majoritariamente pelo próprio esforço. O Campeonato Paranaense de Cheerleading, em 2025, por exemplo, custou R$ 185 por atleta, um valor significativo para equipes que reúnem, no mínimo, 12 integrantes por categoria. Somam-se a isso os gastos fixos da temporada e a necessidade de investimento em coreografia e uniformes. “O time definitivamente precisa de mais apoio, ainda mais algum tipo de apoio da UEPG, pois somamos mais de 100 atletas que competem pelo nome da universidade. Já recebemos um local para treinos, mas transporte com certeza ajudaria”, reforça Olbertz, integrante da equipe. Hoje, a principal fonte de renda das Bulleaders vem das mensalidades, complementadas por participações em eventos da atlética e vendas em colégios da cidade. Esses espaços também funcionam como um local para divulgar o esporte. “Já participamos das cantinas da Bulls em escolas, onde vendíamos comidas para os alunos, e aproveitamos para mostrar o esporte a outro público”, conta.
Mesmo com arrecadações ao longo do ano, os maiores custos continuam sendo estruturais, como a vinda do coreógrafo Dilan Kayne, do Rio de Janeiro, responsável por montar a rotina competitiva. O desafio financeiro divide espaço com dificuldades internas. A rotatividade de atletas e a conciliação de horários são obstáculos constantes em uma atlética que reúne sete cursos, alguns com aula em turno integral. A carga horária universitária faz com que muitos integrantes consigam permanecer apenas um ano. Ainda assim, para quem fica, o time representa mais do que ganhar. “Vejo a Bulls como um desafio e ao mesmo tempo uma família. Todos se dedicam juntos para muito além de conquistar um título: fazemos aquilo que gostamos.”, resume Luíza Maúda, atual presidente da equipe.
Quando o orçamento aperta, existe algo no cheerleading que empurra os atletas adiante: o brilho de vestir um uniforme, que sozinho já representa um investimento significativo. O valor de um uniforme de cheerleading atualmente está na faixa de R$ 400 a R$ 700. Apesar disso, alguns times ponta-grossensses, como o Garras de Aço, que representam a atlética Hunters dos cursos da área da saúde da UEPG, criam ações para comprar os uniformes para o próprio time usar, e repassar aos seus próximos atletas. Mas outros times, como a Bulleaders, preferem não ter este gasto. Gustavo Olbertz expõe que os valores dos uniformes eram significativamente altos demais para os atletas pagarem. “Eu entendi que o preço era muito caro e ficava muito fora de mão para mim, na época eu estudava integral, era difícil eu juntar esse valor”, explica. Em 2025, o time escolheu utilizar um conjunto de roupas produzidas e vendidas pela equipe, que custou menos do que comprar de uma empresa privada.

Foto: Arquivo Bulleaders
Em um esporte em que um erro individual derruba a equipe inteira, a lógica do financeiro segue a mesma ideia de que todos têm que se apoiar. Mesmo com altos custos e poucos incentivos, os times universitários continuam existindo. Pisar no tablado da competição, para muitos, simboliza meses de escolhas difíceis, como abrir mão de saídas, estágios remunerados ou até de gastos básicos. No cheerleading universitário, competir exige mais do que preparo físico exige planejamento. O Rebellion Arena é atualmente o único lugar da região com um tablado próprio para a prática do cheerleading. Apesar disso, o aluguel do espaço acaba sendo uma dificuldade para alguns times.
Nos dias atuais, a Bulleaders possui 17 atletas, realizam dois treinos na semana no ginásio do Bloco G da UEPG e acumulam os titulos de vice-campeões do JOIA (2015, 2016, 2017 e 2019) e do Engenharíadas Paranaense (2019), e terceira colocação no JOIA (2018 e 2022).
Esta reportagem integra uma coletânea de livro-reportagem. Este capítulo trata da história da equipe Bulleaders ao longo de 12 anos. Leia o capítulo anterior aqui. Acompanhe no Periódico as próximas publicações.
Ficha técnica
Produção: Lucas Jolondek
Supervisão de produção: Hendryo André
Edição e publicação: Sarah Brasil, Matheus de Lara e Marina Ranzani
Supervisão de publicação: Aline Rosso e Kevin Kossar Furtado
