Ocupação Ericson John Duarte surgiu em 2021 e reúne famílias que encontraram no local uma alternativa à falta de moradia digna.
Foto: Emanueli Garcia
A história da mais recente ocupação de Ponta Grossa, Ericson John Duarte, surge dentro da sala de aula de um cursinho popular. Leandro Dias, advogado e líder do Movimento Popular em Luta (MPL), conta que, em um dos corriqueiros dias de aula do Emancipa, cursinho popular gratuito de preparação para o ingresso no ensino superior, um tema levantado por estudantes foi a dificuldade de viverem tranquilos sob um teto. “Durante a pandemia, adolescentes relataram dificuldades com aluguel e moradia. A partir disso, comecei a discutir o direito à moradia, tema da minha pesquisa de conclusão de curso, e surgiu a ideia da ocupação”.
Dentro do cenário pandêmico, dados disponibilizados pelo Mapeamento Nacional de Conflitos pela Terra e Moradia apontam que, de março de 2020 até fevereiro de 2023, cerca de 41 mil famílias foram despejadas no Brasil. Uma estimativa mostra que um a cada quatro brasileiros são afetados pela pobreza.
Leandro Dias, militante desde 2002, é uma das principais figuras do movimento habitacional de Ponta Grossa. Em destaque, está sua participação como líder do MPL. Sua influência fez surgir a ocupação Ericson John Duarte, no dia 4 de dezembro de 2021. “Nós olhávamos do alto do bairro Lagoa Dourada um espaço vazio, que já estava destinado para moradia, mas que ainda não tinha sido entregue”. O advogado conta que o projeto organizado pela prefeitura visava a entrega de 170 casas populares. No entanto, ao atingir 20% da obra, a empresa responsável veio à falência, o que causou um atraso de 11 anos na vida das famílias que se beneficiariam das moradias.
“Era outubro quando definimos que iríamos realizar a ocupação. Começamos a falar com famílias do próprio cursinho. Um amigo meu, que toda quinta-feira distribuía alimento no centro para pessoas carentes, começou a chamar o pessoal para participar, que eram os que precisavam”. A divulgação da ação durou cerca de dois meses, conta o advogado. Quando ocorreu, levou 60 famílias a participarem do movimento. “Subimos o terreno e ocupamos, mas em questão de duas horas, o número passava de 200 famílias”.
O militante comenta sobre a pouca importância que o município atribuiu ao fato. “Eles estiveram lá nas primeiras horas, imploraram para desmontarmos os barracos, e disseram que me receberiam para uma conversa”. O movimento negou a proposta, pois não tinham garantias que, se desmontassem os barracões, seriam recebidos pela prefeitura. “A prefeitura disse que estava cuidando do local, mas o que eu via era mato maior que as pessoas”, lembra Dias.
Histórias dentro do coletivo
Carlos Castro das Mercês, pedreiro, habita a ocupação desde 2022. Nascido no estado do Mato Grosso, estabeleceu-se em Ponta Grossa em 2012. Ao longo de seus primeiros 12 anos de vida, nunca permaneceu por muito tempo em um local. Sua família não possuía estabilidade financeira, fazendo surgir constantemente a necessidade da busca por moradia quando os problemas aumentavam.
Em 1980, seus familiares fixaram-se em um território conquistado pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra. Em 1995, era reconhecido pelo seu trabalho como coordenador do movimento social, onde permaneceu até sua mudança para Ponta Grossa.
Após conhecer a esposa, natural do município, Carlos mudou-se para Ponta Grossa para iniciar uma nova etapa da vida. Antes de se estabelecerem na ocupação Ericson John Duarte, localizada no Parque das Andorinhas, o casal vivia no limite para pagar o aluguel. “Nós passamos fome, de verdade. Mas nunca deixamos de pagar nossas contas”, afirma. “Depois que me contaram sobre a ocupação, decidimos construir nosso canto aqui”.
O morador é uma das referências de liderança dentro da comunidade Ericson John Duarte, mas deixa claro que não é mais parte do movimento social. “Ajudo com as necessidades das pessoas, mas não sou militante do MPL”.
Com quase 60 anos, Mercês apresenta problemas de saúde. Foram três infartos sofridos, o último pouco mais de um mês antes da entrevista, que o afastou temporariamente do trabalho. “Tenho indicação do médico para internamento, mas não vou. Das três vezes que fui para a UPA, entrei tranquilo e saí de lá com um balão de oxigênio. Senti que se fosse lá de novo seria apenas para morrer”. Castorina de Jesus Soares, sua esposa, sofre de bronquite asmática, e utiliza dos benefícios da Farmácia Popular para garantir os remédios, que conta ela, são de alto valor.
A ocupação surge como uma forma de restabelecimento financeiro na vida do casal. Sem a necessidade de pagamento de aluguel, as necessidades básicas voltaram a ser atendidas sem restrições. “Eu mesmo montei nossa casa, consertei os problemas estruturais. Estamos satisfeitos com nosso lugar agora”.
Esta é a segunda reportagem da série “Enfrentamentos brasileiros: histórias de luta por condições básicas de vida”, que ao longo deste ano vai tratar sobre casos reais de pessoas que lutam por uma moradia digna em um mundo consumido pelo capitalismo.
Esta reportagem integra uma coletânea de livro-reportagem. Este capítulo trata sobre o surgimento da ocupação Ericson John Duarte em Ponta Grossa através do Movimento Popular de Luta. Leia o capítulo anterior aqui. Acompanhe no Periódico as próximas publicações.
Ficha técnica
Produção: Emanueli Garcia
Supervisão de produção: Hendryo André
Edição e publicação: Daniel Américo, Lorena Santana e Matheus Leônidas
Supervisão de publicação: Aline Rosso e Kevin Kossar Furtado
