Uma semana é pouco para mergulhar na cultura de Ponta Grossa

Uma semana é pouco para mergulhar na cultura de Ponta Grossa

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A jornada cultural desta reportagem começa no centro de Ponta Grossa, a Praça do Ponto Azul. Quem a atravessa diariamente muitas vezes não sabe que a antiga construção do terminal rodoviário abriga a Sala de Artes Visuais. Chego em uma segunda-feira, um pouco antes do início do horário de funcionamento.

A porta é aberta às 8 horas da manhã. Entro e descubro mais de 30 trinta obras, de quatro coleções. Uma delas, da artista ponta-grossense Liliane Garabeli Vaz, da série “Araucárias do Paraná”, impressiona pela técnica a óleo, com a árvore típica da região sendo protagonista. 

A Sala de Artes Visuais do Ponto Azul tem um ateliê para o público infantil, disponibilizando materiais para quem, inspirado, quiser pintar. Essas produções também são expostas.

Segundo Virgínia Ferreira, responsável pela Sala, apesar da gratuidade e da localização central, são poucas visitas. “O pessoal passa aqui na frente todos os dias e não sabe o que tem dentro; alguns olham pela janela curiosos, mas a maioria segue o rumo”. 

Terça-feira: a tradição dos corais

A Igreja Evangélica Luterana Bom Pastor abre às portas semanalmente para apresentações musicais gratuitas, como a reestreia do Coro Madrigal, que eu desconhecia e me impressionou. Criado em 1962 por Gabriel de Paula Machado, diretor e regente do primeiro Coro da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), o grupo renasce em 2022 para manter vivo o legado do maestro.

Com o tema “Canções da Terra e da Gente”, 27 cantores profissionais estão unidos  em uma terça-feira de frio para prestar homenagem ao maestro, cinco anos após seu falecimento. Entre os espectadores, uma senhora em cadeira de rodas, na primeira fileira do corredor central da igreja, chama a atenção: é Rita Maria Monteiro Machado, esposa do homenageado. 

Antes mesmo da apresentação, o público vem às lágrimas com a entrega de um buquê de flores para ela, das mãos do pesquisador Douglas Passoni, que estuda o conjunto da obra do falecido esposo, cuja obra está vivíssima. 

Começa a apresentação com repertório de canções nacionais e, aos poucos, o público vai ganhando intimidade, participa estalando os dedos, com palmas ritmadas e cantando junto. A noite foi se tornando mais quente e aconchegante.

Segundo a maestrina Carla Roggenkamp, que regeu a apresentação, “a história da música de Ponta Grossa caminha junto com a história dos corais. É preciso continuar escrevendo essa história, com vozes novas e que perpetuem o legado daqueles que deixaram sua marca”. 

Saí emocionada e com repertório enriquecido: sequer sabia da tradição dos corais na cidade…

Quarta-feira: hip-hop em cena

Vila Liane, Cará Cará, Shangrilá, Periquitos, Uvaranas e Colônia Dona Luiza. É de alguns destes bairros que chegam os rappers para a Batalha do Coliseu, encontro que acontece há pouco tempo em Ponta Grossa. Vindos da periferia, jovens apaixonados pela arte da rima se reúnem nas quartas-feiras em uma casa de shows na região central. 

Gueg-PR comanda a batalha que assisto. Atuando desde os anos 90, o nome artístico do músico Ismael Alves do Santos homenageia duplamente a própria terra: o sufixo PR é abreviação de “Ponta Rap” e do estado do Paraná. 

À frente dos encontros há mais de cinco anos,  o rapper é considerado um dos fundadores da Batalha do Coliseu. O evento é inspirado em uma famosa batalha na grande São Paulo. “A ideia é que os duelos sigam o mesmo esquema, assim quem sabe desponta uma voz capaz de mover multidões. Ponta Grossa é pequena, mas a gente trabalha pra isso, sabe?”. 

Eu não sabia, mas fico sabendo: as batalhas envolvem dois rimadores, com tempo cronometrado para cada um mostrar seus versos. Os jurados escolhem um vencedor após, pelo menos, quatro rounds.

O vento cortante no rosto de quem saiu de casa à noite para acompanhar o encontro dá o tom para que cada rima se torne ainda mais afiada. O público comemora nos trechos mais marcantes, como “maluco perde o sangue e ninguém vê, polícia bebe sangue e ninguém crê”, trecho cantado pelo vencedor da noite, o rapper Polako. 

Além das batalhas, os encontros promovem a divulgação de novas músicas e videoclipes. Impressionada, saí com uma certeza: a periferia vem tomando o centro. 

Quinta-feira: no museu, sem sair de casa

Após três dias de circuito cultural ativo, minha opção na quinta é aconchegante e ser contemplada do sofá de casa. Refiro-me ao Museu Cenas de Ponta Grossa que, com um clique na tela do celular, disponibiliza um acervo de mais de duas mil fotografias do município, registradas desde o século 19. 

A proposta do Museu é ser um “álbum digital do município” e tem acervos como Foto Elite e Foto Weiss, além de doações de entidades, instituições e famílias de Ponta Grossa. Entre as diversas possibilidades, uma delas me chama a atenção: fotografias da primeira Catedral de Sant’Ana, demolida em 1978 para a construção da atual. 

O projeto é colaborativo. O visitante pode enviar fotografias pessoais ou profissionais, desde o casamento dos seus tataravós a uma selfie recente no Parque Vila Velha. Para serem aceitas, as imagens passam por curadoria.

Para Vitória Gabriela, pesquisadora do museu, “precisamos conhecer o passado e entender o presente para escrever o futuro. O museu é um patrimônio que torna este pensamento mais palpável, e nada melhor do que compreender seus próprios registros e a importância deles para a memória cultural da cidade”.

Sexta-feira: leituras em bando 

Em uma casa verde no bairro de Oficinas, cresce o amor pela literatura nas tardes de sexta-feira no mais antigo clube de leitura da cidade, em atividade há quinze anos. O Bando da Leitura, projeto social criado por Lucélia Clarindo para incentivar o hábito da leitura em crianças e jovens, cria raízes em cada olhar curioso que se aventura pela biblioteca comunitária. 

Com o lema “Aqui nós lemos e fazemos arte!”, o projeto sem fins lucrativos recebe semanalmente cerca de quinze a vinte crianças. Além de leitura, há artesanato, contação de histórias, cantigas de roda e interação com a natureza. 

Por causa das mães que levavam seus filhos, a criadora do projeto iniciou o “Bando Mulher” neste ano, com debate de um livro escolhido em votação, com foco em histórias nacionais. Segundo Lucélia Clarindo, “mães e filhos incentivam uns aos outros. A mãe, que vê o brilho no olhar do filho, a imaginação aflorando, e o filho, que vê a mãe com um livro na mão, entende como um exemplo”. 

Sábado: novos olhares no bairro Vila Nova

O Colégio Instituto de Educação Prof. César Pietro Matinez abre suas portas aos sábados para os jovens moradores do bairro Vila Nova através de fotógrafos e outros artistas promotores do projeto “Novos Olhares”, que une fotografia e literatura. Eles querem ressignificar as histórias de vida em um dos bairros mais violentos de Ponta Grossa. 

Nos encontros, jovens aprendem a usar a câmera fotográfica e a registrar o cotidiano. Depois, cada um escolhe sua foto favorita e a transforma em um poema. Kethlyn Costa, de 16 anos, é uma das participantes. A partir do registro de uma árvore e um muro pichado, a estudante escreveu que a “arte está em todo canto, é só saber olhar”. Ela sonha em ser fotógrafa e espera comprar uma câmera até o Natal. 

Domingo: cultura medieval

Termino a semana em um encontro temático. Após dois anos, Ponta Grossa volta a receber a Feira Medieval dos Campos Gerais, promovida pelo Castelo Florença, no bairro do Contorno. São dezenas de visitantes durante o domingo, um dia de imersão nas tradições medievais. 

O Castelo é decorado com armaduras, espadas e tronos. Após o tour, os visitantes são levados para a área de jogos medievais, onde é possível participar de arremesso de machados, lanças, facas e praticar tiro ao alvo. Foi preciso ter cuidado ao atravessar esta área, os visitantes se empolgam e ninguém quer sair de lá sem a cabeça. 

Acontece ainda luta viking, concurso de fantasia e, no final do dia, a cerimônia da fogueira. O mais curioso é a imagem de uma boneca trajada de bruxa amarrada no topo das toras de madeira, representando uma antiga cerimônia de caça e cremação contra a “arte das trevas”. A atmosfera sombria faz jus ao sentimento de encerramento.

Muitas memórias ficam gravadas, especialmente os participantes trajados como duendes, fadas, sátiros e elfos, além dos médicos da Peste Negra, cavaleiros, guerreiros e monarcas. Ademir e Rita Nosz aderiram à ideia, vestindo trajes de rei e rainha. O casal veio de Irati. “Nós estamos sempre procurando lugares novos. É muito divertido encarnar um novo personagem, viver uma vida diferente por um dia e ver que não somos só eu e minha esposa que curtimos”.

 

Ficha técnica:

Reportagem e imagens: Manuela Roque

Edição e Publicação: Manuela Roque

Supervisão de produção: Marcos Zibordi

Supervisão de publicação: Candida de Oliveira e Muriel E. P. Amaral


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