O eterno espetáculo do Cine-Teatro Ópera

De cinema a patrimônio cultural, o espaço mantém viva a história do entretenimento e das artes em Ponta Grossa

Foto: Ingrid Muller

 

Foto: Acervo de Moisés Francisco / Acervo Ponta Grossa Histórica

Em Ponta Grossa, entre o cruzamento de duas vias que já pulsaram como artérias do progresso urbano (as ruas XV de Novembro e Augusto Ribas), ergue-se um edifício que não apenas ocupa espaço físico, mas também simbólico na memória coletiva da cidade: o Cine-Teatro Ópera. Mais do que concreto, linhas geométricas e ornamentos em estilo art déco, o Ópera é testemunha de uma época em que o futuro parecia caber dentro de uma sala escura iluminada por projeções.

Construído em 1947, o prédio do Cine-Teatro Ópera marcou o início de uma nova fase arquitetônica na cidade. Em um período em que o Brasil urbano começava a se verticalizar, o edifício foi pioneiro ao adotar esse modelo: seis pavimentos que combinavam, no térreo, a grandiosidade de um cine-teatro e, nos andares superiores, residências. Era, ao mesmo tempo, espaço de moradia e de experiência artística, uma síntese da modernidade que se instalava. Não por acaso, foi também o primeiro prédio da cidade a contar com elevador, algo que naquela época, foi considerado um símbolo máximo de inovação.

A inauguração oficial do Cine Ópera ocorreu em 15 de setembro de 1950, sob a liderança de Elias José Curi. O evento não foi apenas a abertura de um cinema, mas a apresentação de um novo estilo de vida. Com capacidade para cerca de 1,4 mil pessoas, o espaço rapidamente se destacou pelo luxo e imponência, tornando-se ponto de encontro da elite local. A primeira sessão foi marcada pela exibição do filme Carnaval de Fogo, sucesso nacional e, segundo um telegrama publicado do jornal Diário dos Campos, havia “pulverizado todos os recordes no Brasil”. O entusiasmo era tanto que o próprio cinema adotava como lema ser o “orgulho de Ponta Grossa”.

Contudo, o Cine Ópera não surgiu isolado, ele foi parte de um movimento maior. O cinema, como fenômeno cultural, já vinha ganhando força na cidade desde o início do século XX, acompanhando transformações como a chegada da estrada de ferro, da imprensa e da eletricidade. Antes dele, salas como o Cine Recreio (1906), o Cine Renascença (1911) e o Cine Império (1939) já haviam encantado gerações. O Ópera, no entanto, elevou esse encanto a outro patamar.

Nos anos 1960, o cinema passou a integrar o circuito administrado por Jorge Miguel Ajuz, por meio da empresa Cicorel– Cine, Comércio e Representações Ltda, consolidando-se como um dos principais polos de exibição cinematográfica da região. Era uma época em que ir ao cinema não era apenas assistir a um filme, mas participar de um ritual social.

Décadas depois, essa memória ainda ecoa nas palavras de quem a vivenciou Kelli Cristine Muller, frequentadora assídua entre os anos de 1987 e 1994, relembra com carinho: “assisti a filmes como Ghost, produções da Xuxa e dos Trapalhões. As sessões lotavam, era um evento ir ao cinema nos finais de semana, principalmente na sessão das 19 horas”. Ela descreve o ambiente com detalhes: cadeiras de madeira, uma bomboniere sempre movimentada (área de conveniência do cinema, onde eram vendidos itens como pipoca, refrigerante, chocolates, balas e outros doces) e um espaço que, apesar da simplicidade em alguns aspectos, era “deslumbrante”.

Salas que também fizeram história

Ao mesmo tempo, surgiam comparações inevitáveis no cenário cultural da cidade. O Cine Inajá, inaugurado em 1965 no cruzamento das ruas XV de Novembro e 7 de Setembro, apareceu como uma resposta ao vazio deixado pelo fechamento do tradicional Cine Renascença, inclusive ocupando o mesmo endereço. Desde o início, destacou-se pela infraestrutura moderna e pelo conforto oferecido ao público, com poltronas estofadas que, à época, representavam um verdadeiro diferencial, sendo considerado um dos cinemas mais bem equipados do país. O espaço permaneceu em atividade por 36 anos, até encerrar suas atividades em setembro de 2001, e o prédio que abrigou sua história acabou indo a leilão judicial em 2019.

Foto: Acervo de Tabajara Macedo

 

Foto: Acervo Ponta Grossa Histórica

Ainda assim, o Ópera mantinha seu prestígio, sustentado não apenas pela estrutura, mas pelo valor afetivo que construía junto ao público. “Todo pontagrossense que viveu essa época tem uma história com o Cine Ópera”, afirma Kelli.

Indo para uma memória ainda mais antiga, o relato de Maria Teresa Pontes ajuda a reconstruir um capítulo importante da história do cinema em Ponta Grossa, antes mesmo do protagonismo absoluto do Cine Teatro Ópera. Frequentadora do Cine Império entre os anos 60 e 70, ela guarda lembranças que hoje resistem apenas na memória, já que o espaço físico não teve o mesmo destino de preservação.

Localizado na Praça Barão do Rio Branco, ao lado do Edifício Princesa, o que resta do antigo cinema são ruínas quase silenciosas, um vazio urbano cercado por construções imponentes que pouco revelam o que um dia existiu ali. Inaugurado em setembro de 1939, o Cine Império funcionou por 53 anos e foi, durante muito tempo, o cinema mais popular da cidade, conquistando o público não pelo luxo, mas pela acessibilidade dos valores do ingresso. 

Maria Teresa relembra de uma forma nostálgica sua primeira experiência naquele espaço: assistir ao filme Django (1966). A partir dali, o hábito de frequentar o cinema se tornou parte de sua rotina. “O Cine Império tinha muito disso, sabe? Era um lugar onde todo mundo podia ir. Passava faroeste, passava filmes mais simples, tinha os filmes do Mazzaropi… era diferente dos outros cinemas mais sofisticados, mas tinha um encanto próprio”, conta.

Entre as características mais marcantes estava a famosa “sessão pão duro”, uma estratégia que tornava o cinema ainda mais acessível. “Às quartas-feiras, com um único ingresso, você podia assistir a várias sessões. Era uma oportunidade para quem não tinha tanto dinheiro, mas queria aproveitar o cinema ao máximo”, explica. A prática não apenas atraía público, mas criava um ambiente coletivo, em que a experiência de assistir filmes se estendia por horas, quase como um ritual compartilhado.

“Foi um cinema que me marcou muito. É triste demais saber que hoje é um local que as pessoas passam na frente e mal sabem que ali existiu um cinema com uma história tão importante para a cidade”, relata Maria Teresa. 

O Cine Império, embora menos luxuoso que o Ópera, cumpriu um papel fundamental na formação do público e na democratização do acesso ao cinema. E é justamente através de relatos como o de Maria Teresa que ele continua existindo, não mais em paredes ou cadeiras, mas naquilo que talvez seja ainda mais duradouro: a memória de quem viveu.

Foto: Acervo de Fundação Municipal de Cultura de Ponta Grossa / Acervo Ponta Grossa Histórica

Foto: Acervo de ARede / Acervo Ponta Grossa Histórica

 

Do silêncio das telas à reinvenção do palco

Voltando para a história do Ópera, o cinema passou pelo maior inimigo de todos: o tempo. Com o passar dos anos, especialmente a partir da década de 80 a 90 o hábito de frequentar grandes salas de cinema de rua entrou em declínio. A popularização da televisão, seguida pelo videocassete e, posteriormente, pelos multiplex em shopping centers, contribuiu para o esvaziamento desses espaços tradicionais. O Cine Ópera não escapou desse processo, suas sessões foram sendo reduzidas até a sua desativação como cinema.

No entanto, diferentemente de outros, ele não desapareceu. O edifício foi ressignificado. Após um período de fechamento e desgaste estrutural, passou por um processo de restauração que resultou  em sua reinauguração em 2005 como teatro. Assim, o antigo cinema deu lugar ao atual teatro, mantendo viva sua vocação cultural e adaptando-se às novas demandas artísticas da cidade.

A transição não apagou o passado, ao contrário, o incorporou. Elementos como as antigas cadeiras de madeira foram preservados como relíquias. Hoje, algumas delas podem ser encontradas na Escolinha da Memória, localizada na Mansão Vila Hilda, e no Centro de Cultura, onde é realizado o projeto CinePG –  cinema público e gratuito de Ponta Grossa, localizado no prédio histórico do Centro de Cultura. Outras ganharam destinos ainda mais pessoais. É o caso de Luciana Martins, apreciadora das artes, que adquiriu uma dessas cadeiras durante o processo de reestruturação. Para ela, o objeto vai além da materialidade: é uma “relíquia temporal”, uma forma concreta de manter viva uma experiência coletiva.

Atualmente, o Cine Teatro Ópera é tombado como patrimônio histórico, reconhecido não apenas por sua arquitetura, mas por tudo o que representa. Seus palcos já receberam incontáveis apresentações, de peças teatrais a concertos, de festivais a eventos comunitários.

Neste ano, 2026, saiu a licitação para novas obras com o orçamento de mais de 280 mil reais, menor que o previsto inicialmente no edital com 317 mil, focando na reestruturação do telhado e forro

O Cine Teatro Ópera permanece, assim, como um elo entre os tempos. Um lugar onde o passado não está congelado, mas em constante diálogo com o presente. E talvez seja exatamente isso que o torna tão essencial: não apenas o que ele foi, mas o que continua sendo: um palco onde as memórias das pessoas que passaram por ali, ainda se mantêm vivas. 

Esta reportagem integra uma coletânea de livro-reportagem. Este capítulo trata de Cine-Teatro Ópera. Leia o capítulo anterior aqui. Acompanhe no Periódico as próximas publicações.

 

Ficha técnica

Produção: Ingrid Muller

Edição e publicação: Leonardo Alexandre, Lucas Barbato e Eduarda Leal

Supervisão de produção: Hendryo André

Supervisão de publicação: Aline Rosso e Kevin Kossar Furtado



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