Araucária na narrativa de Saint-Hilaire.

Araucária na narrativa de Saint-Hilaire.

Araucaria angustifolia é uma espécie arbórea de gimnosperma pertencente à família Araucariaceae e é encontrada em maior quantidade nos estados de Santa Catariana, Rio Grande do Sul e Paraná. Ela pode, contudo, ser identificada também nas regiões situadas mais ao sul de Minas Gerais e também no Estado de São Paulo. Em seu artigo intitulado Distribuição e habitat natural do pinheiro do Paraná o professor Kurt Hueck (1953, p. 5) destaca que a araucária foi descrita “pela primeira vez em 1819, por Bertoloni, sob o nome de Colymbea angustifolia. Em 1822, desconhecendo a descrição anterior, Richard deu-lhe o nome de Araucaria brasiliana, sob o qual hoje é bastante conhecida”.      

Em sua viagem aos Campos Gerais no início do século XIX, o botânico francês Auguste de Saint-Hilaire se deparou com uma paisagem repleta de aspectos singulares que compunham um bioma para ele até então desconhecido e, pelas suas descrições, muito fascinante: a Floresta com Araucárias. Em seu relato ele apresentou características da vegetação que se distinguiam das até então observadas por ele em outras regiões do país.

Para Saint-Hilaire, os Campos Gerais constituíam umas das regiões mais bonitas por ele já visitadas no Brasil; e dentre os aspectos das paisagens repletas de campos e depressões uma elegante árvore lhe despertou muita atenção: a araucária. Ela surgia de forma agrupada e, às vezes, isolada. Em certas passagens de sua narrativa o francês registrou as diferentes tonalidades de cores das araucárias, com destaque para a “cor sombria de sua folhagem” (SAINT-HILAIRE, 1995, p. 43). Em muitos trechos do relato, quando descreveu os Campos Gerais, Saint-Hilaire deixou explícita a sua admiração pela árvore:

É a Araucaria brasiliensis que, por sua altura, pela majestosa elegância de suas formas, por sua imobilidade e pelo verde-escuro de suas folhas contribui, particularmente, para dar uma fisionomia característica aos Campos Gerais.

Em alguns trechos essa pitoresca árvore, elevando-se isolada no meio das pastagens, deixa-se admirar em toda a beleza do seu talhe e faz ressaltar, pelos matizes sombrios de suas folhas, o verde tenro da relva que cresce à sua sombra (p. 13).

Algumas vezes a Araucaria se ergue, isolada, no meio dos pastos, exibindo toda a imponência do seu porte, mas na maioria das vezes ela se confunde com as outras árvores, no meio das matas sombrias que crescem no fundo dos vales e nas margens dos riachos. Vêem-se em vários pontos, no meio das árvores, cortinas de água alvas e espumantes, que se precipitam do alto das colinas rumorosas ao fundo dos vales, fazendo ressaltar o verde-escuro das Araucaria (p. 40-41).

Até então eu tinha encontrado matas compostas inteiramente de Araucaria, bem como outras em que essas coníferas aparecem misturadas com árvores  de diversas famílias; naquele dia foi a primeira vez que encontrei pastos onde o pinheiro-do-paraná cresce no meio do capim, espalhado aqui e ali (p. 70).

Em outra passagem, numa localidade chamada Porto do Jaguariaíba,  registrou sua visão sobre a margem esquerda do rio que estava por atravessar (o rio Jaguariaíba): “Uma mata sombria, formada quase que inteiramente de Araucaria, se elevava…” (p. 43). Além da beleza que lhe despertou a árvore, Saint-Hilaire identificou as araucárias não somente como árvores que enfeitavam os imensos Campos Gerais da 5ª Comarca de São Paulo, propiciando-lhe beleza singular. Ele destacou a importância dela para a dinâmica de subsistência das comunidades as quais cruzou pelo caminho. Elas utilizavam-se tanto da sua madeira para construções de casas como também das suas sementes para a alimentação, tanto a humana quanto a utilizada para o processo de engorda dos animais.

Saint-Hilaire observou algo que se perdeu ao longo do século XX sobre o bioma: o respeito que os habitantes dos Campos Gerais possuíam pela Floresta com Araucárias. Segundo registrou em sua narrativa, a derrubada da árvore só era realizada se houvesse uma real necessidade em carpintaria e marcenaria. “Sabedores da enorme utilidade dessa árvore, eles a respeitam e não a abatem a não ser em caso de necessidade, o que constituiu talvez um caso único em todo o Brasil, que menciono aqui com prazer” ( SAINT-HILAIRE, 1995, p. 15). A indústria madeireira que floresceu ao final dos oitocentos e que prosperou ao longo dos novecentos, contudo, não soube respeitar o bioma. Hoje,  estima-se que  a floresta de araucárias na região sul do país ocupe 3% de sua área original (MARASCIULO, 2020).

REFERÊNCIAS           

HUECK, Kurt. Distribuição e habitat natural do Pinheiro do Paraná (Araucaria angustifolia). Boletim da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, Universidade de São Paulo. Botânica, vol. 10, 1953, p. 5-24.

MARASCIULO, Marília. Araucária pode ser extinta nas próximas décadas por conta de desmatamento.  Disponível em : <https://revistagalileu.globo.com/Ciencia/Meio-Ambiente/noticia/2020/09/araucaria-pode-ser-extinta-nas-proximas-decadas-por-conta-de-desmatamento.html> Acesso em: 10 mai. 2020.

SAINT-HILAIRE, Auguste de. Viagem pela comarca de Curitiba. Curitiba: Fundação Cultural de Curitiba, 1995.

AUTOR:

Rodrigo Karol Voichcoski,

Acadêmico 4º ano de Licenciatura em História UEPG

ANO: 2021

 

 

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