A virada digital do Lira Paulistana

Museu Campos Gerais, em Ponta Grossa (PR), digitaliza emblemático jornal dos anos 80 – marco do jornalismo cultural brasileiro

Uma raridade da imprensa alternativa brasileira volta a público 40 anos depois de sua criação. As páginas do tabloide independente Lira Paulistana tornaram-se referência desbravadora do jornalismo cultural praticado no país, tanto em termos de visibilidade da cena artística do início da década de 1980 quanto na linguagem, em abordagem irreverente a temas até hoje polêmicos no debate nacional.

O impresso teve vida curta, mas intensa. Foram apenas 12 edições semanais de 1981 a 1982. A curiosidade pela iniciativa cultural e jornalística, por outro lado, se estende até hoje. A partir deste mês de abril, pesquisadores, jornalistas, leitores, professores, estudantes e demais entusiastas do ‘Lira’ em qualquer lugar do mundo passam a ter acesso inédito e online à versão digital daquela experiência em tudo analógica.

Uma parceria entre Museu Campos Gerais (MCG) e o Mestrado em Jornalismo da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG) visa garantir a preservação desse documento da imprensa alternativa para consulta gratuita e irrestrita na web no repositório Memórias Digitais (http://memoriasdigitais.museu.uepg.br/).

A proposta veio do historiador Tiago João José Alves e foi por suas mãos que o único volume dos exemplares encadernados do Lira Paulistana chegou a Ponta Grossa (PR). O historiador, que mora em Curitiba, tem realizado juntamente com a museóloga, designer e documentarista Fernanda do Canto, para fins de pesquisa, entrevistas com o ex editor do periódico, o reconhecido jornalista Fernando Alexandre, que reside em Florianópolis (SC). Em um desses encontros, surgiu a ideia de trazer emprestado o importante volume na bagagem a favor de sua memória.

A partir daí, o historiador começou a procurar por serviços de digitalização em Curitiba e, por indicação do Museu da Imagem e do Som do Paraná (MIS-PR), chegou ao museu da UEPG. Feitos os primeiros contatos com o diretor de acervo do MCG, professor Rafael Schoenherr, a proposta ganhou corpo em fevereiro, com apoio do Mestrado em Jornalismo da instituição e teve início a digitalização do material.

Por mais que ultrapasse o escopo local e regional de nosso acervo documental, trata-se de um registro jornalístico único reunido em um volume raro, que precisa ser mais pesquisado em todo o país. Para isso, deve estar acessível mesmo à distância. Isso é possível pelo serviço de digitalização que o museu presta à sociedade e ficamos felizes ao receber essa proposta do Tiago”, explica Schoenherr.

Para a professora Paula Melani Rocha, coordenadora do Mestrado em Jornalismo da UEPG, a disponibilização do jornal atende a interesses das duas linhas de pesquisa do Programa de Pós-Graduação. Tanto as pesquisas mais voltadas às interfaces culturais do jornalismo quanto aquelas focadas em processos produtivos específicos tendem a ganhar com a redescoberta desse material tão raro. Lembro da atuação do centro cultural Lira Paulistana e do jornal quando ainda era estudante em São Paulo. Foi uma surpresa agora reencontrar essas páginas”, enfatiza.

Do papel jornal amarelado ao www

O geógrafo e técnico de digitalização João Paulo Leandro de Almeida é quem recebe em primeira mão qualquer volume impresso que chega ao MCG com vistas a virar um arquivo digital online. A primeira etapa é de avaliação do estado físico do material e das dimensões do volume. Essa análise permite reconhecer se o scanner em asa utilizado comporta os documentos ou se precisa de alguma adaptação. O tamanho da página e da lombada da encadernação é um detalhe importante para tudo funcionar corretamente, segundo Almeida.

Cada página passa a ser então fotografada, gerando respectivos arquivos de imagem que, a seguir, são tratados a fim de gerar um documento digital no formato PDF. A última etapa corresponde ao upload do aquivo no repositório Memórias Digitais, com preenchimento de campos de informação que facilitem o acesso do público.

O processo de digitalização do jornal Lira Paulistana levou um mês e contou com o auxílio do estagiário Ricardo Enguel Gonçalves, do curso de História da UEPG. As etapas foram registradas em fotos pelo estudante Gabriel Mendes, do projeto de extensão Lente Quente, do curso de Jornalismo da UEPG. Toda a parte presencial do processo de digitalização ocorreu em fevereiro, antes, portanto, da suspensão das aulas e do atendimento ao público no museu.

A história do jornal Lira Paulistana

Inspirado no Village Voice, de Nova York, e Time Out, de Londres, o jornal Lira Paulistana foi editado na forma de tabloide com 28 páginas, reunindo reportagens e o roteiro cultural da capital paulista. O periódico foi um dos primeiros cadernos dedicados à cultura independente e alternativa, antecedendo, por exemplo, o Caderno 2, d’O Estado de S. Paulo, e a Vejinha, da revista Veja.

Pioneiro na divulgação da tríade cultura, lazer e serviços, o jornal, idealizado pelo jornalista Fernando Alexandre foi uma usina criativa, utilizando equipamentos analógicos, de forma artesanal, para divulgar o que ocorria nas artérias de São Paulo. O semanário contou com colaborações de jornalistas como Caco Barcellos, Caio Fernando Abreu, Inimá Simões, Maria Rita Kehl, Paulo Caruso, entre outros.

Por meio de editoriais, opiniões e colunas, o Lira inovou a maneira de se fazer jornalismo. Seu design e sua redação tinham como características uma leitura descontraída e informal. Se hoje é comum a existência de cadernos, jornais e sites que divulgam a cena cultural e alternativa dos bairros e das cidades brasileiras, o ponto de partida desse tipo de comunicação foi dado pelo Lira Paulistana”, explica o historiador Tiago Alves.

O Centro Cultural Lira Paulistana

O centro cultural Lira Paulistana foi casa de shows, cinema, editora, selo fonográfico e teatro. Com nome inspirado no livro de poemas de Mario de Andrade (1893-1945), localizado na Rua Teodoro Sampaio, bairro Pinheiros, o Lira Paulistana marcou a cultura de São Paulo e foi plataforma para diversos artistas. Funcionando entre 1979 e 1986, o pequeno porão exibia filmes, peças de teatro, shows, gravava discos, editava um jornal, publicava livros, divulgando e produzindo a cena alternativa e independente de São Paulo. A casa era dirigida por cinco sócios: Wilson Souto, Riba de Castro, Fernando Alexandre, Plínio Chaves e Chico Pardal.

Sem sombra de dúvidas, o Lira Paulistana foi um espaço de extrema importância para a cultura, não só paulistana, como nacional, tornando-se um ponto de referência das artes plásticas, cênicas, música, cinema, literatura e jornalismo”, avalia o historiador Tiago Alves.

Artistas como Itamar Assumpção, Tetê Espíndola, Ira!, Titãs, Kid Vinil, Lanny Gordin, Língua de Trapo, Ratos de Porão, Viper, Almir Sater, Tom Zé, Ná Ozzetti, Língua de Trapo, Made In Brazil, Ultraje a Rigor, entre outros, se apresentaram ou iniciaram suas carreiras no Lira Paulistana. O espaço era frequentado por jovens, estudantes da PUC e da USP, além de nomes como Arrigo Barnabé, Maurício Kubrusly, Marcelo Tas e Fernando Meirelles, sendo que alguns deles começaram suas carreiras influenciados pelo fervor cultural do Lira Paulistana.

Foi também a partir dessa experiência que foi organizada a primeira Virada Paulista, realizada em 1982, evento que acontece até os dias de hoje.

Documentário e debate interdisciplinar comemoram a digitalização do acervo

Estão previstos para este ano dois eventos da UEPG que marcam a valorização do acesso público ao jornal Lira Paulistana via processo de digitalização no site Memórias Digitais. O Museu Campos Gerais exibe o documentário ‘Lira Paulistana e a Vanguarda Paulista’ em data ainda a ser definida, em função do recesso de combate à pandemia COVID-19. Com direção de Riba de Castro, o audiovisual apresenta a trajetória do Centro Cultural Lira Paulistana a partir de entrevistas com seus principais artistas e produtores, além da recuperação de imagens de arquivo de shows e espetáculos.

Outro desdobramento da digitalização do jornal Lira Paulistana é a realização de mais uma edição dos ‘Diálogos em Jornalismo, História e Literatura’, evento interdisciplinar de catálogo do Mestrado em Jornalismo da UEPG em parceria com outros PPGs e pesquisadores. O tema será a vanguarda paulista e o Centro Cultural Lira Paulistana. A data também passa por redefinição em função da suspensão de atividades na UEPG e será informada tão logo aconteça o retorno ao calendário letivo.