Quem passou pela Rua Engenheiro Schamber, 654, neste sábado (21), viu sorrisos à solta pelo Museu Campos Gerais da Universidade Estadual de Ponta Grossa (MCG-UEPG). Mais de 600 pessoas se reuniram ao longo do dia para a primeira edição do Museu no Pátio. O evento celebrou a cultura afro-brasileira, com oficinas, exposição de obras de arte, contação de histórias, feira de livros, discos e roupas, exibição de filme e apresentações musicais. Promovido em parceria com a Divisão de Assuntos Culturais da Pró-Reitoria de Extensão e Assuntos Culturais (DAC-Proex), o evento também marcou o retorno do CineArte, depois de 15 anos.
Passos que vêm de longe
O samba foi o que ditou o ritmo de sábado – teve oficina de pandeiro e dança, com apresentação da sambista Janine Mathias, em uma roda de samba, para fechar o evento. Dentre as oficinas, estava a professora de língua portuguesa e passista Narah Madureira, que promoveu uma interação com entusiastas do samba, em uma roda de dança e descontração. “Quando eu recebi o convite para fazer a oficina, eles me deixaram livre e falaram: ‘traga alguma coisa do samba’. Aí eu pensei: ‘O que que eu vou fazer?’, porque eu sou professora de educação especial, e a minha vivência com o samba é da vida inteira”. Foi aí que ela pensou na contribuição que ela e a família deu para a cidade, com as escolas de samba e a música.
“Não tem como falar do samba sem falar da nossa ancestralidade, né? Porque o samba é construído através da nossa história. Da história de cada um. Os passos vêm de cada história. Eu não queria passar algo pensando em coreografia, passos marcados. Queria que eles pensassem na ancestralidade desde a África”, complementa Narah. E foi assim que as pessoas formaram uma roda de dança, ao som de Dona Ivone Lara, Molejo e Beth Carvalho. Quem ia ao centro, puxava a próxima pessoa para dançar também. Para Narah, ter um evento que celebra a ancestralidade negra em Ponta Grossa foi um presente. “Significa um fortalecimento das lutas, porque não tem como desassociar o samba, seja ele dançado, cantado, tocado, da cultura negra”, destaca. “Trazer esse povo da periferia, lembrar da história, da formação, como foi conduzido isso e fazer uma celebração dessa, eu acho que só fortalece mesmo. Não só a cultura do samba, mas as nossas vivências também”.
Extensão na pós-graduação
O Museu no Pátio também rende informações para pesquisa, conduzida pelo professor Robdon Laverdi. Segundo ele, a programação aberta para a comunidade cumpriu a função de envolver os alunos da pós-graduação e da graduação. “Foi feito todo um trabalho de construção de uma perspectiva de história pública, que envolve a coprodução de conhecimento com a comunidade, abertura, contato, interação e prospecção de atividades e de referenciação social do Museu com a comunidade”.
O projeto está ligado ao Programa de Extensão da Educação Superior na Pós-Graduação (Proext-PG), e neste semestre planeja desenvolver atividades com a comunidade e com os acervos fotográficos do Museu. “Vamos envolver os alunos na apresentação dos acervos fotográficos, com produção de fontes orais para a comunidade. Este é um projeto que envolve história pública e museologia social, que tem por por finalidade construir pontes com a comunidade, fazendo parceria”. Com esta iniciativa os pós-graduação são envolvidos, “seja na apresentação dos acervos, seja na preparação da mediação, seja na preparação do conteúdo das atividades culturais e particularmente da disciplina de acervos, o que resultará ao final do semestre numa produção de uma exposição compartilhada usando fotografia e fontes orais”, completa.
Celebração
Foi a primeira vez que o MCG abriu as portas do pátio (e a rua) para o público num sábado. Para o diretor do MCG, professor Niltonci Batista Chaves, o evento superou as expectativas. “Isso fortalece o Museu, porque o público que a gente teve aqui foi muito diferente do cotidiano do Museu. E essa é a função, abrir o espaço para as pessoas que nem sempre vêm ao MCG participarem das atividades e também conhecerem o Museu. Isso é muito importante para a gente”. O professor celebrou ainda o retorno do CineArte, com a exibição do filme Cartola – Música para os Olhos. “O CineArte estava parado desde 2011, voltamos com a casa cheia e com o debate que foi muito legal depois”. O grupo manteve todas as características originais do projeto, com exibição e debate. “A partir de agora, a gente vai rediscutir a pertinência dele voltar, talvez, para além do Museu do Pátio”, acrescenta.
Outro entusista da arte é o professor Nelson Silva Júnior, diretor da Divisão de Assuntos Culturais da Proex. Ele participava das antigas edicões do CineArte. Para ele, este retorno significou a celebração do cinema brasileiro. “O cinema é meu objeto de pesquisa há muito tempo, e o CineArte foi um dos maiores e melhores projetos que nós tivemos em Ponta Grossa. Então, é um momento muito especial e que a gente vive com muita emoção, porque ele marcou uma geração”. Para o professor, o Museu no Pátio cumpre um papel já estabelecido pela Proex de popularização da cultura. “Vai ao encontro da proposta da DAC de trazer mais pessoas, mais a comunidade externa para dentro dos espaços da Universidade, e isso para nós é muito importante”, completa.
Trabalho
Para o Museu no Pátio acontecer, o MCG contou com a atuação de professores, alunos e profissionais bolsistas. Foram semanas de preparação e planejamento da programação. A expectativa é realizar mais três edições neste ano, aos sábados, sempre nas trocas de estações, celebrando um ritmo musical. “Acho que o ponto mais notável no desenvolvimento desse projeto é a interação com o público. Tivemos um público variado, desde bebês até pessoas idosas, então o saldo que fica é essa interação da Universidade com a comunidade”, salienta Merylin Ricieli, membro da organização do evento. A equipe já planeja as atividades da próxima edição, que vai acontecer no dia 20 de junho e que trará o jazz como ritmo musical. “Esperamos ter cada vez mais o Museu como interlocutor desse diálogo com a comunidade, que ele consiga promover grandes parcerias, grandes formações, e que as pessoas se sintam pertencentes dessa memória”, finaliza.
Texto: Jéssica Natal | Fotos: Jéssica Natal, Larissa Godoy














































































