Rota Preta PG destaca locais e história da população negra do município
Que Ponta Grossa era considerada um grande polo ferroviário para o Paraná não é novidade. Porém, pouco se fala sobre os trabalhadores das ferrovias, quem fazia a cidade girar e era responsável por grande parte do crescimento urbano de uma das maiores cidades interioranas do Paraná, os negros recém-libertos. Eles eram os principais responsáveis pela manutenção das linhas férreas, dos vagões e do maquinário. Essa população fazia o trabalho braçal, principalmente na fundição de ferro.
A sankofa é um símbolo gráfico que faz parte da cultura tradicional africana, especificamente dos povos de língua acã. A palavra une os termos “san”, que significa voltar; “ko”, que significa ir; e “fa”, que quer dizer buscar. Quando criado, o símbolo não tinha a ver somente com a palavra, e sim com o provérbio na língua acã “se wo were fi na wosankofa a yenkyi”, que pode ser traduzido como “você pode voltar atrás e buscar aquilo que esqueceu” ou “nunca é tarde para voltar e apanhar aquilo que ficou para trás”. O dito pode ser representado por um pássaro com a cabeça voltada para trás segurando um ovo em seu bico ou por arcos estilizados e espelhados que lembram um coração, segundo Ivanildo Carvalho no artigo Para o alto com sankofa!
Conheci esse grafismo na manhã de um sábado durante um trajeto do projeto Rota Preta PG. Quando criança, eu amava visitar museus. Sou natural de Castro, cidade turística conhecida pela produção de leite e pela colônia holandesa. Da Casa de Sinhara ao Museu do Tropeiro, o pequeno João se encantava com a história por trás daqueles locais e da própria cidade.
Os arcos com o símbolo da sankofa podem ser facilmente encontrados na arquitetura ponta-grossense, principalmente no centro, nas redondezas da catedral. Como o próprio significado diz, eles simbolizam o “olhar para trás” e o “não esquecer”. É curioso pensar que uma classe social tão violentada e reprimida até os dias atuais foi a responsável por consolidar Ponta Grossa e sua rede ferroviária como destaque no estado. Hoje, muitas vezes, essas histórias são esquecidas, reprimidas e descartadas. O próprio pátio ferroviário e os barracões, localizados no bairro de Oficinas, ao lado do estádio Germano Krüger, estão com o futuro incerto. Há indícios de que a área se tornará um jardim botânico, segundo a prefeitura municipal. Enquanto edifícios de matriz colonial, como a Mansão Vila Hilda, são reconhecidos como patrimônio e recebem manutenção, os locais ocupados majoritariamente pelos negros são esquecidos e descartados.
Conheci o trabalho de Merylin Ricieli dos Santos em 2025, durante uma caminhada do Rota Preta, projeto vinculado ao Museu Campos Gerais. Merylin é doutora em História pela Universidade do Estado de Santa Catarina (Udesc). Desde 2010, ela resgata e pesquisa essas histórias. A iniciativa consiste em mapear e realizar rotas históricas por uma perspectiva afrocentrada e analisar a presença negra em Ponta Grossa. Mais de 60 pontos da cidade integram o projeto.
Desde 2024 Merylin atribui sentidos e perspectivas a edifícios e territórios já conhecidos em Ponta Grossa, como a Casa do Divino, o Clube 13 de Maio, e toda a linha férrea, que possui uma enorme narrativa pelos trilhos do trem. Para a historiadora, é indispensável olhar à população negra e sua história. Afinal, a escravidão foi força motriz de Ponta Grossa em um período de crescimento urbano da cidade, segundo ela. “Para mim, é muito significativo pesquisar isso não só porque sou uma mulher negra, mas porque eu sou constituída na e pela democracia”, afirma.
Além de uma realização pessoal, Merylin traz a própria vivência para a pesquisa. Descendente indígena e negra, ela não conheceu os avós e bisavós e não sabe qual a origem de seus antepassados. Ela buscou informações, mas nunca obteve resultados concretos. Achou apenas informações fragmentadas. “Com esse projeto, eu sei que estou deixando algo para as futuras gerações”, ressalta a pesquisadora.
Esta reportagem integra uma coletânea de livro-reportagem investigativo. Este capítulo trata do Rota Preta PG. Acompanhe no Periódico as próximas publicações.
Ficha técnica
Produção: João Pimentel
Supervisão de produção: Hendryo André
Edição e publicação: Karine Santos, Roberto Indzejczak e Maria Eduarda Leme
Supervisão de publicação: Aline Rosso e Kevin Kossar Furtado
